Blog do Nildo Paulino: Ainda há tempo para conversa inteligente sobre São Paulo

Comunicador, contador de histórias e observador do cotidiano.

Ainda há tempo para conversa inteligente sobre São Paulo

Por Vinicius Torres Freire Folha de S.Paulo SUPONHA que o caso Maluf deixe de poluir as conversas sobre a eleição em São Paulo, seja lá por qual motivo. Do que se vai falar, então? Sim, a gente sabe dos problemas principais. As escolas são uma tristeza indizível. As pessoas perdem metade do seu tempo livre no transporte. O povo não tem hospital decente. O de sempre. Sim, esperamos que os candidatos tenham algo de bem pensado a dizer sobre o assunto, em vez de aparecer com programas com nome marqueteiro, populista e cafona ("Mamãe Bacana", "Bebê Paulistano"). O candidato dirá algo sobre como mudar o padrão de gasto da prefeitura? Só 11% da despesa vai para investimento. Sem isso, não vai dar para acreditar que o prefeito novo vai fazer algo lá muito diferente em termos de obras. Que ideia nova e radical terá para a educação? Ressalte-se: educação é o que e como as crianças aprendem. Uniforme importa, comida, salário, escola limpa e inteira importam. Mas nunca falamos de aprendizado. A educação no Estado e na cidade mais ricos do país é um desastre. Os tucanos estão há quase 18 anos no governo, tempo suficiente para transformar uma criança em médico formado, e os resultados dos testes são vexaminosos. Na cidade de São Paulo, mais ou menos dominada por tucanos, com pitadas petistas, a coisa não anda melhor. O que dirá o prefeito? Quem será o seu genial secretário da Educação? O que o prefeito tem de dizer de inovador? O que fará do Minhocão? Do lixo? Em São Paulo, só ouvimos falar de lixo quando se trata de concorrência superfaturada. O que o prefeito tem a dizer sobre reciclagem, usina de energia movida a lixo? O que tem a dizer sobre tentativas de estimular a economia paulistana? Vez ou outra ouvimos que a prefeitura vai demolir tal ou qual região para que se construa um "novo polo econômico" de "novas tecnologias" (em geral, tecnologia da informação, TI). Mas o que temos aqui de TI? O prefeito sabe? A gente tem, por exemplo, muito hospital bom (menos para os pobres), turismo de saúde etc. Por que não temos um "polo de tecnologia e indústria" de saúde e medicina? Por falar em indústria, esse setor ainda produz uns 20% do valor agregado da economia paulistana (dados de 2009, deve ter caído um pouco). Em 2000, eram 26%. Sim, São Paulo se "desindustrializa", mas ainda é uma força industrial. Pregar que a cidade é de "serviços" é ideologia. E "serviços" pode significar tanta coisa. Pode ser restaurante, limpeza, apoio à produção industrial, finanças. Enfim, onde estão esses polos tecnológicos? O governo do Estado faria um no Jaguaré, ao lado da USP (TI, fármacos, bio e nanotecnologia). Anda devagar, quase parando. Os polos da região da Luz e da cracolândia são um fiasco gigantesco dos tucanos e de Gilberto Kassab. Por falar em USP, dois dos principais candidatos, Serra e Haddad, são "uspianos". Vai fazer diferença? São Paulo é uma cidade de "turismo de negócios e de cultura", diz-se. Mas os hotéis são caríssimos e o trânsito vai parar (que tal pedágio urbano?). Não temos nem trens para os aeroportos, uma pobreza. Não falta, enfim, assunto para uma conversa civilizada sobre a cidade.

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