Generalizações como "os nordestinos têm muitos filhos", "vivem apenas do Bolsa Família", "os paulistanos pagam impostos para sustentá-los" ou "são todos vagabundos" eram algumas das afirmações que eu mais ouvia por aqui. O problema é que esse tipo de preconceito também ganhava força nas redes sociais, muitas vezes apresentado como se fosse verdade absoluta.
O que mais me incomodava era perceber que algumas dessas opiniões vinham de pessoas que desconheciam completamente a realidade da região.
Para justificar seus argumentos, muitos recorriam à própria televisão como fonte de informação. Programas populares, com quadros como "De Volta para Minha Terra", acabavam sendo utilizados como retrato de todo o Nordeste.
Mas a realidade era bem diferente.
Segundo projeções do Banco Central citadas à época, a economia nordestina apresentava crescimento de cerca de 1,6%, enquanto a região Sudeste crescia 1,4%. O cenário apontava para novos investimentos públicos e privados no Nordeste, enquanto o Sudeste enfrentava dificuldades, principalmente na indústria.
Outro dado citado pelo Instituto Data Popular mostrava o crescimento da Classe C na região. Três em cada dez pessoas que haviam ingressado na chamada nova classe média eram nordestinas.
Também vale destacar um estudo publicado em 2010 pela economista e socióloga Tânia Bacelar, da UFPE, intitulado "Para além do preconceito".
Segundo o estudo, diversos setores produtivos do Nordeste vinham passando por um processo de dinamização, atraindo novos investimentos. Políticas sociais, aumento real do salário mínimo e ampliação do crédito contribuíram para esse movimento.
O setor de serviços também teve papel importante. Entre 2003 e 2009, o Nordeste esteve entre as regiões que mais avançaram nas vendas do comércio varejista. O aumento do consumo atraiu supermercados, grandes lojas, indústrias de alimentos e bebidas, entre outros empreendimentos. Ao mesmo tempo, pequenas e médias empresas locais ampliaram sua produção.
Na educação, a expansão das universidades federais e da rede de ensino profissional também alcançou cidades médias do interior. Sumé, minha cidade natal, foi uma delas.
Tânia Bacelar também destacava a mudança na percepção sobre a agricultura familiar. O PRONAF ampliou seus investimentos de forma expressiva entre 2002 e 2010, enquanto programas como o Seguro-Safra e o Programa de Aquisição de Alimentos ajudaram a movimentar a produção rural.
O Censo Agropecuário citado no estudo apontava ainda que a agricultura familiar respondia por três em cada quatro empregos rurais do país e por quase 40% do valor da produção agrícola nacional. O Nordeste tinha participação importante nesse cenário, concentrando 43% da população economicamente ativa do setor agrícola brasileiro.
É evidente que ainda havia muito a fazer pelo desenvolvimento da região. Isso nunca esteve em discussão.
O que não dava era aceitar calado comentários baseados em preconceito, desconhecimento e generalizações.
Antes de formar uma opinião sobre o Nordeste, talvez fosse melhor conhecer um pouco mais sobre sua economia, sua gente e as transformações que estavam acontecendo por lá.
Como diz a velha frase:
"Senhor, perdoa-lhes, eles não sabem o que dizem."
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